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Os corações apavorados

Quase todos os meus contos terminam em morte.

Não é fatalismo e nem pessimismo. Eu não sei quando parar. Não sei quando dizer um basta. Nem nos contos, nem nos relacionamentos, nem quando descubro que as amizades não são amizades, nem… nem.

Os autores de contos felizes sabem quando parar. Por isso têm finais felizes, leitores felizes. As pessoas que lêem meus contos são como eu. Não sei se são infelizes, mas não distribuem beijos na rua. Amam, mas se iludem e se destroem porque amam. Na verdade, na maior parte das vezes, se deixam ser destruídas por aquilo que amam porque não sabem a hora de parar. Apenas se apaixonassem, destruiriam só os outros. Mas não basta. É vago demais. Mas o amor, por outro lado, faz reféns.

Recentemente, um movimento se mobiliza em minha cidade contra a violência, o Fortaleza Apavorada. Me peguei pensando, em algum momento, se com a proximidade do dia dos namorados criassem o movimento dos Corações Apavorados. Milhares de pessoas iriam às ruas exigir providências pelo fim do amor, citariam estatísticas e números de suicídios e assassinatos provocados pelo mesmo. Exigiriam uma postura enérgica das autoridades. Talvez criassem até alguma lei municipal ou estadual, ou, quem sabe, o dia sem amor, como tem o dia sem cigarro. O amor mata mais do que cigarros, eu acho. Até porque o tabagismo e o alcoolismo são muitas vezes consequências do abuso de amor. Aliás, da abstinência dele. Ou dos abusos sofridos por conta dele.

E é uma droga de alto poder destrutivo, como o crack. Assim como este último, basta uma pequena dose para tornar a pessoa dependente. E a pobre vítima faz coisas impensáveis a fim de suprir sua carência da substância, chegando a se humilhar e se voltar muitas vezes contra sua família. E se vêem muitas vezes nas mãos dos traficantes de amor, estas pessoas que detém grande quantidade da substância e distribuem aos seus clientes que nunca estão satisfeitos e, por isso, acabam na mão desses crápulas, pessoas sem um pingo de compaixão ou humanidade que brincam com as necessidades dos outros e até lucram em cima disso.

É comum ver uma pessoa que foi afetada pelo amor se distanciar dos amigos e da família para se dedicar somente ao seu vício. Igualmente comum é que suas crises afetem seu desempenho nos estudos e no trabalho. Sinceramente, não entendo como a Organização Mundial de Saúde nunca se pronunciou a respeito. Ou se o fez, como o problema não é mais amplamente combatido.

E a única cura para este terrível mal, inclusive para as crises de abstinência, assim como para qualquer outra droga, é o tempo. Claro, durante o tempo de recuperação podem ser administrados placebos, como por exemplo amizades mais próximas que podem suprir as necessidades do viciado em variados níveis, dependendo da amizade e da gravidade da situação. No entanto, é necessário lembrar que, como no caso do alcoolismo e da dependência de outras drogas, a recuperação é uma luta diária. Por isso, o melhor remédio é o tempo. Não sei porque nunca vi grupos de Amantes Anônimos. Acho que muita gente participaria.

Mas a tragédia da coisa é que, por ser o tempo a única cura, as coisas fatalmente terminam como nos meus contos. Não existem finais felizes. Existe apenas o melhor momento para parar de contar uma história.

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